Textos desconexos, indicações literárias, opiniões pessoais, muitas palavras em um visual simples e propositalmente minimalista.

  • Trechos Literários (2) – Disputa trabalhista na Divisão dos Cetáceos

    Eis um trecho do livro Vilão Iniciante, de John Scalzi.
    Achei apropriado reproduzi-lo no dia 1º de Maio (Dia do Trabalhador).
    Leia, garanto que se divertirá.


    Capítulo 9 – Págs 88-93

    Os escritórios da Divisão de Cetáceos ficavam a uma curta caminhada do cais, em uma lagoa artificial protegida e parcialmente fechada que se estendia por algumas centenas de metros. Lá dentro, um grupo grande de golfinhos nadava e brincava. A maioria se movia de forma aleatória — ou, pelo menos, de uma forma que me parecia aleatória —, porém, mais ou menos no meio da lagoa, perto de uma parede interna, seis deles estavam reunidos em duas fileiras, guinchando alto para uma mulher em traje de mergulho. Ela não parecia satisfeita.

    — O que está acontecendo? — perguntei enquanto caminhávamos em direção aos animais.
    — Uma reunião de reclamação — explicou Williams.
    — Que reclamações um golfinho poderia ter?
    — Que reclamações um golfinho não poderia ter? — disse Morrison.

    Ao final do caminho, chegamos à doca perto da lagoa. A mulher em traje de mergulho se virou e nos notou.

    Hora da verdade: até aquele momento, eu nunca tinha visto um golfinho na vida real.

    Mentira. Devo ter visto um golfinho em alguma excursão ao Aquário Shedd quando estava no quinto ano ou coisa assim. Mas nunca tinha feito nenhum esforço para ver um. Excursões à parte, aquários não eram minha praia e, na vida adulta, “nadar com golfinhos” parecia bizarro e objetificador. Não consigo imaginar que um deles realmente queira passar a vida sendo abraçado por uma sequência infinita de amantes de golfinhos bêbados e meninas pré-adolescentes, e eu não queria passar um único minuto com membros de nenhum desses grupos para fazer a mesma coisa.

    Durante nossa lua de mel em Maui, no Havaí (eu sei), Jeanine e eu fizemos um cruzeiro ao pôr do sol (eu sei) que prometia que veríamos golfinhos (eu sei), mas os organizadores do passeio não consultaram os golfinhos, e nenhum apareceu. Foi nesse cruzeiro que Jeanine descobriu que ficava terrivelmente enjoada em barcos de médio porte e vomitou três drinques mai tai e a comida do “bufê de luau” do navio nas minhas calças e sandálias. Não foi um bom começo para a vida de casados. Não acho que ver golfinhos teria ajudado.

    Tirando o fato de que seis deles estavam organizados em duas fileiras de três, nadando em silêncio na água bem à nossa frente, eles pareciam golfinhos comuns. Eu sabia que deviam pertencer a uma espécie específica, mas não tinha ideia de qual poderia ser; fisiologia de golfinhos não era minha especialidade. Notei que um deles, no centro da primeira fileira, estava boiando perto do que parecia ser um microfone.

    — Eles falam? — perguntei.
    O golfinho chiou alguma coisa.
    — Quem é esse filho da truta? — emitiu um alto-falante próximo.
    — Acho que isso responde — comentei.
    — Filho da truta! Filho da truta! — começaram a gritar os outros golfinhos em uníssono.

    A mulher em traje de mergulho se virou para eles e disse:
    — É o novo chefe de vocês, seus cretinos despolegados.
    — Foda-se ele! E foda-se essa sua visão de mundo manucêntrica!
    — “Manucêntrica”? — questionei.
    — Não é o que você pensa — disse a mulher em traje de mergulho, levantando-se e vindo na minha direção. — Manus é “mão” em latim. “Manucêntrico” é a palavra que eles inventaram de usar quando querem nos acusar de preconceito.
    — Fodam-se seus dedos! — exclamou o golfinho do meio.
    — Fora com os dedos! Fora com os dedos! — entoaram os outros golfinhos, resolvendo participar da discussão.

    Falando em mãos, a mulher em traje de mergulho estendeu a dela.
    — Astrud Livgren. Relações cetáceas.
    Apertei a mão dela.
    — E como vão essas relações?
    Astrud olhou para trás.
    — A mesma coisa de sempre.
    — Ela é uma escrota! — gritou o golfinho do meio.
    — Então eles são sempre assim?
    — Estamos bem aqui, porra! Pode perguntar, seu primata bípede!
    Levantei as sobrancelhas para Livgren.
    — “Primata” é novidade — comentou ela. — Eles misturam vários insultos para ver o que funciona. Você se acostuma. — A mulher gesticulou para os golfinhos. — Por favor, fiquem à vontade.

    Eu me aproximei deles. Os guinchos diminuíram.
    — Oi. Vocês são os primeiros golfinhos que estou conhecendo.
    — Olha só, grande merda — resmungou o golfinho do meio.
    Por um breve momento, pensei no software de tradução que tinha a capacidade de pegar os assobios e estalos de um golfinho e traduzir para “grande merda”, mas continuei:
    — Meu nome é Charlie Fitzer.
    — Oi, Charlie — disse o golfinho. — Meu nome é Tô Nem Aí, e esses são meus companheiros Caguei, Foda-se, Vaza Daqui, Quebra Tudo e Abaixo a Burguesia.
    — Prazer em conhecê-los. Pelo que entendi, temos algum tipo de disputa trabalhista, é isso?
    Tô Nem Aí bufou.
    — Como se você desse a mínima.
    — Eu também era filiado a um sindicato. O Chicago Tribune Guild.
    — Mas não é mais, né? Agora você é da gerência! Uma fístula burguesa supurante de opressão!
    — Fístula burguesa! Fístula burguesa! — repetiram os outros golfinhos em uníssono.
    — Não vou mentir, estou impressionado que vocês levam jeito para as palavras.
    — Não seja condescendente com a gente, seu monte ambulante de verrugas — disse Tô Nem Aí. — Se vai continuar com as políticas trabalhistas repressivas do seu tio, pode ir se foder lá na casa do cacete.
    — Lá no cacete! Lá no cacete!

    Olhei de volta para Morrison.
    — O tio Jake era contra sindicatos? — perguntei.
    — Ele era da opinião de que animais não tinham legitimidade legal para formar sindicatos — explicou Morrison.
    — O que os gatos acham disso?
    — A maioria deles está em cargos de gerência.
    — Gatos são uns pelegos. Um bando de traidores peludos, aqueles desgraçadinhos — comentou Tô Nem Aí.
    — Como…? — Eu me virei para Livgren. — Como é que os golfinhos têm consciência de classe, para começo de conversa?
    — As sociedades deles são complexas — respondeu ela. — Não necessariamente têm paralelos exatos com as sociedades humanas, mas dá para fazer analogias de modo geral, e pelo visto a ideia de classe é uma que funciona para eles. Além disso, meu antecessor nessa função leu O capital e outros textos sobre economia para os golfinhos.
    — Temos uma educação melhor que a sua, seu Habsburgo de cérebro liso chorumento — disse Tô Nem Aí.
    — Eu estudei na Northwestern — falei, só um pouco na defensiva.
    — Aaaaah, nossa, na Northwestern — repetiu Tô Nem Aí. — Maldito capacho dessas faculdades que só se preocupam com futebas, você deve ter tanto orgulho.
    — Capacho! Capacho!
    — Vocês se esqueceram da Universidade Rutgers — retruquei, mas então olhei de volta para Livgren. — Ainda assim, essa é uma informação bastante esotérica para uma criatura marinha.

    A mulher deu de ombros e apontou:
    — Temos um projetor a laser e eles sabem usar o controle remoto. Passam bastante tempo vendo tv. Futebol americano universitário é um dos programas favoritos.
    — O que eles fazem quando estão trabalhando?
    — Segurança e inteligência. Patrulham as águas ao redor de Santa Genoveva e nos alertam sobre qualquer pessoa ou coisa fora do comum. Também coletam informações sobre movimentação e comunicação náuticas.
    — É bastante coisa.
    — Vocês não conseguiriam fazer bosta nenhuma sem a gente. Seria uma pena se tivéssemos que entrar em greve — exclamou Tô Nem Aí.
    — Vocês já entraram em greve antes? — perguntei.

    Tô Nem Aí calou a boca e desviou o olhar.
    — Eles já ameaçaram. Mas nunca cumpriram — comentou Williams quando olhei para ele e Morrison.
    — Por que não? — continuei.
    — Não têm força de manobra — disse Morrison.
    — Como assim?
    — Significa que somos escravos de vocês, seus merdinhas — respondeu Tô Nem Aí.

    Olhei de volta para Morrison com uma expressão preocupada, e ela explicou:
    — Eles são livres para ir embora quando quiserem. Nós não os rastreamos. Bem, só enquanto estão em serviço, isso faz parte do trabalho. Só que não vamos impedir se um ou mais golfinhos decidir que quer ir embora. Mas eles não vão.
    — Por que não? — perguntei para Tô Nem Aí.
    — Pelo mesmo motivo que você não abandona sua casa para ir morar na selva com um bando de bonobos de merda, seu lixo explodindo de pus — respondeu Tô Nem Aí.

    Até pela tradução computadorizada eu percebi que ele (ela? Não sei como diferenciar o gênero dos golfinhos, e não era hora de perguntar) não tinha dedicado o mesmo ímpeto a esse último insulto.

    — Há desvantagens em ser inteligente — disse Livgren. — Ou, para ser mais exata, em ter uma inteligência mais humana do que outros membros de sua espécie. — Ela gesticulou para os seis golfinhos. — Eles ficam entediados com facilidade. Não se integram bem com membros inalterados da própria espécie. Já viram como os humanos costumam tratar mamíferos marinhos em cativeiro.
    — Porra, aquele documentário, Blackfish — comentou Tô Nem Aí.
    — Eles reclamam muito, mas também sabem quais são as alternativas — continuou Livgren. — Recebem um belo pagamento e são bem-cuidados, e suas necessidades como grupo e como indivíduo são atendidas. É uma troca justa pelo trabalho.
    — Não é só isso e você sabe — rebateu Tô Nem Aí, e acho que essa foi a primeira frase sem um insulto, ou um palavrão, ou ambos.

    Antes que eu pudesse perguntar o que isso significava, Williams pigarreou.
    — Charlie, temos outras coisas a resolver.
    — Isso mesmo, dá no pé, seu cagão — disse Tô Nem Aí.
    — Dá no pé! Dá no pé!
    — Volto em breve. Tem algo aqui que preciso investigar — decidi.
    — Claro — falou Williams com um sorriso. — Agora você é o chefe, Charlie. Não precisa fazer as coisas do jeito que seu tio fazia. Mas tudo o que Jake fazia tinha um motivo, e é importante você saber quais são eles.

    Williams fez um sinal para me afastar dos golfinhos. Eu me virei para Tô Nem Aí e implorei:
    — Não entrem em greve por enquanto, por favor.
    — Olha só, ele pediu “por favor”, isso resolve tudo — respondeu o golfinho. O momento de introspecção claramente havia passado.
    — Vou dar uma olhada nessa questão — prometi.
    — Chupa, Northwestern — retrucou Tô Nem Aí.
    — Chupa! Chupa! — entoaram os golfinhos.

    — Bem, correu tudo como você esperava? — perguntou Morrison, enquanto nos afastávamos da lagoa.
    — Não sei bem o que eu estava esperando ou imaginando.
    — Provavelmente não era golfinhos boca-suja — opinou ela.
    — Eles parecem ter a boca bem suja mesmo.
    — Se você fosse um golfinho sem opções, talvez também teria, Charlie.
    Parei para pensar nisso.
    — Você está do lado dos golfinhos aqui?
    — Entendo o ponto de vista deles.
    — Mas você concorda?
    Morrison me encarou.
    — Não era meu trabalho concordar ou discordar. Meu trabalho era fazer o que seu tio precisava que fosse feito.
    — Isso permite muita flexibilidade moral — comentei, depois de considerar as palavras dela.
    — É um bom eufemismo — concordou Morrison.
    — Qual é seu trabalho agora?
    — A mesma coisa. Só que agora envolve você também. Está na hora de ver o quão flexível é sua moralidade, Charlie. Porque é bom você saber que vai ter que fazer um baita alongamento.


    A quem se interessar:

    Vilão Iniciante (Link na Amazon)
    288 páginas
    John Scalzi
    Publicado no Brasil pela Editora Aleph
    Lançado originalmente em 2023

    — Sinopse oficial

    Depois de um divórcio conturbado, Charlie abandonou o trabalho como jornalista e passou a se dedicar ao ensino, mas não tem nem muito dinheiro, nem amigos ou parentes próximos, só sua gata um tanto indiferente lhe faz companhia. A verdade? Ele anda mesmo é tendo uma vida de cão.

    Quando é incumbido de atender ao último pedido de seu recém-falecido tio Jake, uma pessoa que não via ― nem desejava ver ― desde pequeno, Charlie descobre que é o único herdeiro de uma enorme fortuna. Mas toda essa grana foi acumulada graças aos negócios secretos do tio como supervilão, com covil em uma ilha vulcânica e tudo.

    No entanto, o novo cargo de vilão iniciante não é só alegrias, laser gigantes e poços de lava. É também dar conta de todos os adversários ricaços atraídos pelo tio durante os anos, verdadeiros Ernst Stavro Blofeld, Raoul Silva e Auric Goldfinger, arqui-inimigos de 007. Entre desavenças e facadas nas costas, agora cabe a Charlie tomar um partido nessa disputa centenária pelo controle do planeta enquanto lida com seu novo estilo vilanesco de vida.

  • Despedida a um avô que incomodava

    Escrever sobre a morte, o luto e a perda não é algo fácil. Mesmo não sendo a primeira vez que escrevo, sempre parece haver um peso no coração e na mente — somando a um calafrio que coexiste num momento em que você ainda está processando sobre o falecimento de alguém. Muitos até colocam sua própria mortalidade em perspectiva nestes momentos.

    Desta vez foi meu avô (Antonio) quem faleceu. 91 anos. Completou sua jornada neste plano existencial e se foi.

    Não é o primeiro avô que perco, mas o outro partiu quando ainda era muito novo, ainda muito criança. O sentimento e as circunstâncias são muito diferentes. Um avô perdido no início da infância, cujas lembranças existem por histórias e fotos é muito diferente de um avô que esteve por aqui, que pude conhecer, observar e ver envelhecer. E que agora, com sua história concluída, se fragmenta em apêndices históricos de quem ainda segue vivendo.

    Mas antes de continuar e dizer algumas coisas legais sobre meu avô recém falecido, preciso de preâmbulo para dizer que, como pessoa… bem, haviam incontáveis contradições.

    Sendo honesto, a palavra que acredito resumir meu avô, algo que ouvi de todos ao seu redor, desde que me dou por gente, é de que ele era “bicho ruim“. Tenho isso gravado em minha memória de infância, repetida vezes durante a adolescência e assim se seguiu até seus anos finais.

    Dizer que alguém é, por sua essência, ruim é genérico demais. Mas existe contexto. Meu avô era bruto em sua essência. Um chucro, muitas vezes desagradável. Sempre xingava, ofendia e brigava com qualquer pessoa da família. Se achava dono da razão e via interesse no dinheiro dele em todos ao redor. Era o tipo de parente que diz “sai da minha casa e não precisa mais voltar aqui, não!“, algo que o meu pai seguiu por duros anos quando eu ainda era criança.

    Era uma pessoa das antigas. Haviam atos de violência, física e verbal em suas veias. Alguém que bateu em seus filhos, de uma forma que hoje em dia a sociedade repudia. Suas palavras podiam tirar qualquer um do sério, ofendiam, humilhavam e ridicularizavam até as pessoas que moravam com ele. Um homem com segredos, mentiras e traições, rompantes históricos ainda mais antigos que a minha própria existência.

    Meu avô era uma pessoa que incomodava as pessoas. Alguém de poucos amigos. As irritavam, as deixavam indignadas. Cujo passado, sua infância, juventude, nunca pude descobrir a respeito. Nunca o desvendei. Só entendo que a vida, para quem nasceu por volta de 1935, estava longe de ser o mar de rosas dessa era de emojis e redes sociais. A cultura, os costumes, a sociedade não era NADA parecido como é hoje. Também não sei sobre meu bisavó (seu pai) e na correlação para que meu avô, o bicho ruim, se tornou esse ser.

    Essa era uma parte, mesmo que gigantesca, do meu avô Antonio. Ao menos que eu conheci, que posso contextualizar.

    Nestes últimos anos de sua vida, já havia cortado laços com meu avô. Há alguns anos que não o vejo — e agora esse relato é minha despedida post-mortem a ele. Minha motivação para tal afastamento ocorreu um pouco depois de ter terminado a pandemia, talvez em 2022 ou 2023. As pessoas, as famílias, tinham esse anseio de se encontrarem novamente, de se reverem.

    Mas a minha última visita na casa de meu avô não foi bacana. Havia um mal estar generalizado ali. Ele estava mal humorado, e sinceramente, nem recordo do motivo exato. Sempre era algo bobo, sem importância. Reclamando de tudo, de todos. Sendo o ingrato habitual. Me recordo não de uma briga, mas de um sermão que dei a ele. De dizer que ele deveria estar feliz pela reunião com a família, com seus netos e bisnetos. Que existem momentos pequenos na vida que precisam ser apreciados.

    Houve falas sobre o peso da idade. Ele tinha problema na vista, estava com ela bem debilitada. Dores no corpo. Não ter seus filhos presentes com a constância que ele gostaria para cuidar dele e da avó. Havia capricho, quase uma exigência. Sua frustração com não poder mais dirigir. E de como era árduo que qualquer favor que pedisse a alguém soava como alguém querendo extorquir dinheiro dele. Palavras e reclamações que já ouvia até mesmo antes da pandemia, antes mesmo de me tornar pai. Um cenário comum.

    Acabei intervindo. Palavras que hoje vejo que mais foram pra mim, do que talvez pra ele. Depois disso, decidi que as visitas parariam por ali.

    Disse: “Sim, tudo isso é uma merda. O fim da vida, o fim do ciclo é um saco, e é por isso que o senhor deveria apreciar ESSE momento, aqui e agora. Se isso não lhe traz felicidade, sinceramente não sei o que trará. Estamos aqui porque queríamos ver o senhor, a vó. Compartilhar a vida, enquanto ela ainda nos rodeia. Dores, dificuldade da idade, tempo acabando, não estou dizendo que não é uma reclamação válida, mas neste momento, tudo isso deveria momentaneamente ser colocado de lado. E toda vez que estamos aqui, parece que não estamos agradando a ninguém.

    Talvez não foram estas exatas palavras, mas foi o sentimento que deixei escapar de minhas cordas vocais. Não houve briga, mas ele fez aquela cara de “você não sabe nada“. A visita ficou com esse amargor até o fim. E nem era a primeira em que isso acontecia, mas foi a última que participei. Ele nunca me mandou embora da sua casa, mas tomei a decisão de não mais visitá-lo. Se é para todos ficarem mal, então qual o motivo do encontro? Nos despedimos e vida seguiu. Meus pais, minha irmã, continuaram indo lá nestes últimos anos. Eu não.

    Foi uma decisão errada? Há arrependimento? Difícil responder isso de forma assertiva. Foi o que aconteceu, e ponto. Pessoas se afastam, e a vida segue. É duro, é cruel. Mas é o que acontece.

    Dito isso, meu avô se foi. Ele não terminou sua vida se arrependendo de tantas coisas ruins que fez, de todos que ofendeu. Não houve pedidos de desculpas ou arrependimentos a ninguém. Ele seguiu em seu suspiro final sendo o bicho ruim que sempre foi. Não estou dizendo que não houve amor dele por sua família. Tenho certeza de que existiu, mas de um jeito deturpado e incômodo.

    O que resta agora, são estas palavras e o sentimento da perda. Uma momentânea reflexão dentro do luto. Há coisas pelas quais eu sou grato ao meu avô Antonio. Eventos de casualidade e efeito. Sua existência nesse plano trouxe adventos que foram importantes em minha vida. Há lembranças calorosas, até gentis.

    Foi um avô que bancou por anos férias no litoral para toda a família. Ainda que com diversas brigas e discordância entre os adultos, foram férias na infância que ficaram em minha memória. Como criança, me diverti horrores. Se hoje não ligo pro litoral e pra praia, foi porque ele proporcionou muito disso aos filhos e netos. Me lembro da sensação de liberdade nessas férias. De sair sozinho da casa, ir na padaria, jogar fliperama, de subir em árvore, enfim… de ser criança.

    Toda a minha vida adulta também poderia ser completamente diferente se meus avós não morassem no bairro em que conheci a minha esposa, o amor da minha vida. Foi por passar férias escolares na casa deles, que pude conhecer a molecada do bairro e, eventualmente, a menina moleca que viria a ser a mulher da minha vida. Meu avô pode não estar conectado diretamente a essa história, mas ele foi uma variável importante para que ela ocorresse.

    Já adulto, também aprendi pelos erros. Sobre como é chegar ao fim da vida e perceber o afastamento das pessoas ao redor do meu avô. Entender sobre a pessoa que não gostaria de me tornar. Entendi melhor sobre evitar ressentimento, ignorância, raiva e, principalmente, a infelicidade que dinheiro pode trazer, tendo ou não. Ele foi um exemplo do que não quero me tornar, e trouxe reflexões sobre envelhecer de uma forma que não afaste as pessoas. É triste, eu sei.

    E tenho mais uma lembrança sobre meu avô que me orgulho de ter. Durante o pior período da pandemia, passamos meses conversando ao telefone, enquanto em quarentena. Ele certamente se sentia sozinho, então ligava para as pessoas. Muitos não atendiam. Eu sim, em quase todas as ligações que ele me fez. Conversas que duravam quase horas inteiras.

    Curioso que estas ligações revelavam um avô diferente, fragilizado, claramente sentindo-se solitário. Sentindo falta das pessoas, da família. Essa que ele tanto ofendia e brigava. As ligações quase sempre eram sobre saudades, as dificuldades causadas pela pandemia, e querendo saber como eu e minha família estava. Ligações simples, mas havia emotividade em sua voz. Eu atendia porque entendo o sentimento de solidão no mundo, acabei me solidarizando com esse avô. Mas ele nunca existiu fora destes telefonemas. Presencialmente ele sempre foi outra pessoa, até mesmo depois da pandemia.

    Agora é desse avô que quero me lembrar. Do avô que levava todo mundo pra praia, que me permitiu passar férias em sua casa, sair pra rua pra brincar com a criançada (tempos em que era normal a criançada passar o dia todo na rua), que foi por causa disso que conheci minha esposa, que permitiu que hoje eu seja pai, do avô que precisou de uma voz na pandemia, e que acabou também me ajudando a passar por um período de muita ansiedade e incertezas.

    Sim, ele foi o bicho ruim. Seu Antonio não foi fácil. Deu muita dor de cabeça pra muita gente. Brigou, ofendeu e terminou sua jornada fiel em sua casca dura. Contudo, nos meus apêndices particulares, haverá coisas boas para me lembrar dele. Poucas, mas haverá, e acho que está tudo bem ser assim.

    No mais, sinceramente… espero que você, vô, independente de onde estiver, se estiver, encontre a paz e o descanso que nunca quis ter em vida.

    E a vida assim continua,
    porque a jornada de quem ficou,
    ainda não terminou.

  • Temporalidade (1) | Já se passaram quarenta anos?

    Hoje este pensante editor completa 40 anos. Fechar uma década é um momento reflexivo para qualquer ser humano. Não importa se são 10, 20, 30 ou 40… a vida humana é finita e mesmo que se atinja a idade secular, a disposição de energia do corpo vai cobrando seu preço década a década.

    Se o olhar da mortalidade não é tão visível assim aos vinte, para muitos essa jornada começa a te cutucar aos trinta ou quarenta, pois aí surge as famosas dores, especialmente nas costas, uma grande inimiga dos seres bípedes. Mas outros sinais vão surgindo e você mal percebe. Não bate mais aquele almoço como se você nunca mais fosse almoçar na vida, não sair correndo (a pé) para algum tipo de compromisso senão vai chegar lá como se tivesse acabado de sair de uma piscina e passar a madrugada em claro jogando ou assistindo TV vai se tornar uma missão altamente improvável. Os sinais começam devagar, mas logo estão por toda a parte. Isso é fato.

    Tirinha do @galvaobertazzi publicada em suas redes sociais em 29/07/24.

    Dito isso, acho curioso que sob a perspectiva de quem acabou de completar 40 anos, sinto que pouco mudei nestas últimas décadas. Houve sim uma evolução, um amadurecimento, mas quando olho para certos adultos ao meu redor, vejo que a vida de muitas pessoas mudam tão abruptamente que se elas voltassem 20 anos no tempo, talvez não se reconhecem mais.

    Pessoas envelhecem e param de gostar de coisas que sempre gostaram. Abandonam hobbies. As vezes até soam como velhas vitrolas que só apreciam os mesmos discos. Param de acompanhar novidades. Envelhecer as vezes é um ato que maltrata e amarga algumas pessoas. Algumas trabalham exaustivamente, passam por rompimentos amorosos, se decepcionam e aquela alegria da juventude vai se perdendo. Os traumas da vida as modificam, e elas se perdem.

    Claro que também tem as pessoas que se encontram com o tempo. Passam a curtir novas coisas e entendem que estes novos hobbies são muito mais legais do que os antigos. Porém, quando isso ocorre não é como se a pessoa deixasse de gostar daquilo que gostava no passado, é uma troca mais sadia, que respeita aquele passado e não há uma interrupção abrupta da persona com ela mesmo. Bem, não sou filósofo, e nem psicólogo, para expandir isso. Deixamos isso no achismo mesmo.

    Tirinha de Jim Davis, criador de Garfield, publicada na GoComics em 17/06/16.

    De volta aos meus 40, como estava dizendo, sinto que não mudei tanto assim. Ainda gosto de boa parte de tudo que me divertia desde os anos iniciais, assim como o que foi descoberto na adolescência. Sou adepto da boa leitura, de livros de ficção científica, suspenses e literatura de alto valor mundial, mas também sigo lendo mangás e até mesmo quadrinhos, de Disney aos imutáveis super heróis Marvel e DC.

    Videogames? Esse é um universo que faz parte do meu DNA e nunca parece que vai me cansar. Adoro escrever sobre, adoro testar novas ideias e mecânicas, assim como amo certos gêneros. É verdade que com a idade existem muitas situações de “bem, eu já vi isso e não é mais uma surpresa“, e aí a empolgação muitas vezes não é equivalente ao que uma geração gamer mais nova tem para com certas obras. É a primeira vez deles nisso, mas eu já rodei 40 anos nessa estrada e já vi muita coisa. Muita mesmo.

    Mas é curioso como jogos eletrônicos é um ponto que evoluiu nas últimas décadas, acompanhou o crescimento das pessoas, mas ainda assim é um dos entretenimento que mais parecem perder as pessoas ao longo de décadas. Há muitas pessoas que jogavam aos 20 e quando chegam aos 40, nem sabem mais o que é videogame. Por que essa desistência? Difícil explicar. Uns acabam enfrentando desafios maiores: a vida adulta, seja profissional, seja do relacionamento, seja dos eventos sociais, seja financeiros. Mas certamente o maior contratempo é o tempo. “Não tenho mais tempo“. Você já deve ter ouvido essa justificativa em algum momento da sua vida. Se não ouviu, espere mais uma década, que ela irá chegar.

    Tirinha de Jim Davis, criador de Garfield, publicada na GoComics em 19/06/24.

    Pra mim esse é o maior contratempo do envelhecimento: encontrar mais tempo. Cheguei aos 40 e tenho pilhas de coisas pra ler, para assistir, para jogar. E sem qualquer expectativa de que um dia colocarei tudo em dia. Alias, acredito que ter mencionado algo assim em algum lugar quando fiz 30 anos. Nada mudou. Tempo continua sendo o maior inimigo do ser humano.

    E aos 40 passamos a perceber como o tempo é realmente cruel. Aos vinte também você ainda não tenha perdido pessoas ao seu redor para a morte, mas conforme você envelhece, esse elemento inevitável da vida passa a lhe rodear. E não estou falando apenas de avós ou velhinhos. Chega um momento da vida em que você encontra alguém que se foi e era mais jovem do que você. A vida dessa pessoa se esgotou cedo demais. Essa é uma das maiores tristezas do envelhecimento, lidar com a perda das pessoas nesse mundo, o buraco deixado e a tristeza que isso causa. Você luta e vence isso, mas a morte é uma constante cada vez maior conforme se envelhece.

    Nestes meus 40 já tive algumas despedidas de pessoas que faziam parte desde plano e precisaram ir embora muito cedo. Algumas pessoas se partem repentinamente e as vezes você recorda delas como se ainda estivessem por aqui, de tão presente que suas almas eram nesse plano. Você se recorda de bons momentos com estas pessoas, de suas importâncias aos seus entes queridos, sorri e pensa “ela era uma pessoa incrível.“. Ano passado tive um conhecido que se partiu tão rápido e de uma forma inesperada que você coloca em cheque o propósito da balança da vida e da morte, e quão insano é a roleta a qual vivemos.,

    Chegar aos 40 é também uma vitória, e consigo celebrar a memória de todas as pessoas queridas que se foram nos últimos anos. O luto é algo presente, mas que você tem que vencer. Entretanto, sempre fico com a sensação de que pensar na morte é como aquela corrente de ar que passa pelo corpo e vem aquele frio na espinha. Inevitável.

    Disso claro que surge aquele pensamento sobre o tempo que lhe resta nesse plano. Já foram quarenta anos, então há uma probabilidade bem alta de que o rolê já está na metade de sua jornada. Para muitos menos, os 50 e 60 anos sempre esbarram em muitos desafios na pasta da saúde. Se cuidar torna-se uma questão essencial. Envelhecer é uma bosta nesse sentido, convenhamos. Só que ficar pensando na sua finitude não é saudável e nem recomendado. Viva enquanto ainda há vida. É um bom lema, não?

    Tirinha de Jim Davis, criador de Garfield, publicada na GoComics em 14/06/23.

    Muitos também chegam aos 40 pensando em seus objetivos e meta da vida. Angustiados ou preocupados de não ter deixado uma marca no mundo. Será que precisamos de fato de um papel em vida? Nem todo mundo será um grande líder, ou um grande revolucionário, ou alguém famoso, ou um gênio que mudará o curso da humanidade. A grande maioria é só poeira estelar de um cosmo infinito. E está tudo bem!

    Penso que a grande sacada de estar vivo é aproveitar os pequenos momentos. Viver um dia de cada vez e desfrutar das pequenas alegrias. Viva para seu bem. Não viva pelo seu trabalho, por metas muitos distantes, pelos outros ou objetivos existências como “vencer na vida“. A vida não é algo pra ser vencida, é para ser vivida. E muitos não vivem (de fato), pois estão tentando vencer algo que é imposto por regras sociais de um sistema que tende a escravizar pessoas, tomar seu tempo, suas felicidades e pequenos prazeres. Não caia nesse armadilha! Ao menos não todos os dias, em todos seus minutos. Tenha responsabilidades, mas não deixe de desfrutar as pequenices da vida.

    Da minha parte, chego feliz aos 40 anos. Não me tornei presidente ou alguém importante. Não me tornei milionário ou rico o suficiente para ter uma casa no litoral. Contudo, tive minha cota de conquistas, que me trazem felicidade e tranquilidade para pensar que não joguei fora quatro décadas. Sou feliz por ter encontrado o amor da minha vida muito cedo, e estar com essa pessoa maravilhosa desde então. Claro que passamos perrengues, momentos sombrios e de questionamentos, porém vencemos distâncias, e seguimos juntos, nos amando, todo dia um pouco mais. Sou grato pelo passado e presente, e o futuro, vou descobrir quando chegar lá.

    Mas não só isso, tive minhas conquistas como um adulto em uma sociedade cheia de regras. Tenho um emprego estável há anos. Sobrevivi a uma pandemia global. Mesmo aos 40, a tecnologia não me assusta e encaro novidades assim que são arremessadas na minha fuça. Gosto dos meus hobbies e mantenho parte dos mesmos desde que considera um ser pensante. Fiquei mais críticos a certa coisas, enquanto a terapia descobriu novos lados da minha personalidade, de quem sou, que moldaram meu eu de 40. Tenho mais consciência de quem sou, de uma forma que nunca tive na vida. Isso, por sinal, é incrível, pois há pessoas que vivem toda sua finitude e nunca descobrem de fato o que realmente são. E talvez eu seja mais, não sei, espero ter mais algumas décadas para descobrir.

    Não posso deixar de comentar que a paternidade também algo emocionante. Talvez minha segunda maior conquista nessa vida existencial (pois a primeira foi ter encontrado um amor genuíno, e não é tão fácil assim). Descrever a sensação de ter um ser criado do zero, educar, vê-lo crescer, descobrir que ele te ama, que você o inspira, a importância de como suas atitudes o moldam e que a sua vida está entrelaçada com esse futuro, inclusive quando não mais estiver nesse plano de vida, é realmente muito difícil de descrever. É um tipo de felicidade que não se põe em palavras. Você apenas a sente.

    Tirinha de Jim Davis, criador de Garfield, publicada na GoComics em 15/06/19.

    Por fim, para terminar… o aniversário. Essa é uma discussão que vem desde os trinta. Quando se é criando, você adora aniversário. Espera pelos presentes, pela festa, pela celebração. Isso é algo que, ao menos pra mim, se perde com o envelhecimento. Presentes? Ora, essa, sou auto suficiente. Posso comprar o que quiser, quando quiser. Estamos no país do parcelamento e do cartão de crédito. Não tenho que esperar meu aniversário por um videogame ou qualquer outra coisa. É por ser um adulto e poder consumir o que bem entender.

    Algumas pessoas apreciam a festa, reunir as pessoas e tal. Bem, isso não funciona comigo devido algumas inabilidades sociais, entre outros dilemas. Aprecio mais a paz, estar com as pessoas que estão comigo todos os dias, e na boa, não existe isso de esperar um aniversário para reunir amigos e pessoas queridas. Como adultos, é possível fazer isso quando bem entender. Festa, por si só, acabou se tornando uma espécie de convenção para encher a barriga de pessoas que você não vê com muita frequência. Particularmente acho uma baita bobagem. Mas tem quem goste. Acho que tudo bem também, pra você claro.

    Tirinha de Jim Davis, criador de Garfield, publicada na GoComics em 16/06/23.

    Volto a dizer que aos quarenta, prefiro os pequenos momentos. São nestes que reside a genuína felicidade. Não preciso de comemorações. Lembrar que estou ficando mais velho, que meus presentes já comprei ao longo do último ano. Aniversário a gente celebra nos pequenos detalhes. Na felicidade de acordar ao lado de alguém que você ama, de ver seu filho crescer, de estar sem dores e cuidando da saúde. A celebração está nos detalhes que tornam a sua vida feliz aos 40 anos. Quem bom que está tudo bem. Quer presente melhor do que isso?

    No mais, nada melhor do que iniciar o dia que você nasceu, tomando café com a pessoa amada, comendo uma coxinha e apreciando estarem juntos. As vezes, é na simplicidade que estão os melhores momentos que se pode ter. Seja seu aniversário, seja um dia qualquer. Apenas aproveite.

    Tirinha de Jim Davis, criador de Garfield, publicada na GoComics em 17/06/21.

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