Textos desconexos, indicações literárias, opiniões pessoais, muitas palavras em um visual simples e propositalmente minimalista.

  • Até semana que vem, Vó… não faça bagunça, ok?

    De novo estou de volta diante deste teclado para falar sobre a morte. Algumas semanas depois de ter refletido sobre a morte do meu avô. Ontem, 24 de junho de 2026, minha avozinha — minha mãe, a Dona Adélia, meu cabeção —  de 100 anos partiu desse plano de existência, após dias brigando entre estar ou partir. E palavras são importantes nesse momento, porque o coração pede por isso.

    Minha avó foi a melhor pessoa que já tive a honra e o orgulho de conhecer nesta vida, com o coração do tamanho do mundo. Parte da minha criação foi feita por ela, que me ensinou valores, lições, caráter e de como é se sentir amado de forma incondicional. Suspeito que jamais irei encontrar alguém como ela.

    Ela amou todo mundo. Quem merecia e não merecia, quem se distanciou ou surgia de forma ocasional, quem partiu e quem reapareceu, aquele que apenas existia, quem tinha interesse, quem estava apenas em suas lembranças, aquele que se manteve distante ou quem ela pediu por distância, até quem desapareceu no mundo. Não importa, seu amor, sua preocupação, sempre foi para todos. E como há tanto espaço num coração para tanta gente? Essa é uma resposta que, aos 40 anos, ainda não encontrei.

    Já esperava sua partida, não pelo mal súbito que ela sofreu uma semana antes desse texto, mas era um sentimento que estava em meu coração nos últimos anos. São muitos anos, o corpo enfraquece, a mente ainda lúcida nem sempre vinha com a mesma força de outrora. Mas saber e acontecer de fato, realmente são construções emocionais tão diferentes… dizer que havia preparo mental… é uma grande mentira. O baque vem de onde você sequer sabia que poderia vir.

    Minha avó era a minha mãe, ela me criou em uma parte significativa da minha jovem existência. Mesmo quando ainda não morava com ela, sua presença ainda está em muitas das minhas lembranças. Ela sempre foi uma força, um dínamo conectado a minha existência, dando energia, valores e juízo onde ainda nem entendia o quanto isso me transformaria no futuro. Quando parti de sua casa, para construir a minha família, casar com o amor da minha vida e ter meu lindo e maravilhoso filho, de forma involuntária eu criei um pacto nunca explicado, numa planejado: de retornar a sua casa, uma vez por semana, para vê-la.

    Mais de duas décadas se passaram com tal hábito. Houve vezes que faltei? Sim. Teve semanas em que estava tão cansado que não fui? Houve. Quando isso acontecia, meu coração sentia certa dor, talvez culpa, por não ter tido força para realizar esse gesto. Fazendo uma conta de maluco, foram aproximadamente 1.040 semanas em 20 anos, a qual acredito que 95% das vezes eu estive lá. A vi, conversei sobre a vida, perguntei como ela estava. E ela me esperava toda a semana, contava com essa visita, e me sentia feliz pela gratidão dela esperar minha presença.

    No começo, sempre tomávamos café, já que a visitava em finais de tarde. Ia na padaria, comprava pão. Mas nos últimos anos, houve um momento em que percebi que isso estava sendo difícil pra ela, já mais debilitada, receosa em lidar com cozinha, sem ter coisas gostosas para o neto, porque nem mais ir ao supermercado ela ia sozinha. Então fizemos outro acordo: a visita era só visita, não era um ode ao café da tarde. Ela não precisava me alimentar (pois é o que ela queria de fato). Foi difícil, mas ela aceitou. Nossas visitas era para nos vermos, conversar sobre a semana dela, fofocarmos e sobre nossas bobagens.

    A visitei em dias chuvosos, em dias de extremo frio, com calor de suar para todo lado, em dias em que ela estava doente, também quando eu estava doente, em dia em que mal conseguia abrir os olhos de cansaço (acho que em uma ocasião eu cochilei alguns minutos do lado dela), e dias de tristeza, onde ela não se sentia bem. Ela sempre pareceu entender que cada semana, havia um Thiago diferente, as vezes mais animado ou mais cansado, as vezes com mais tempo, outras não. E ele sempre me recebeu com seu amor.

    Chegando aos 100 anos, outras rotinas se estabeleceram. Tirar sua pressão se tornou uma conversa semanal. Ela sabia seus números, sempre dizia se eram altos, baixos ou normais dentro da mesma semana. Nossas conversas se repetiam em looping, pois com uma idade avançada, muitas história repetidas surgiam, ela sempre achando que estava me contando pela primeira vez. Eu ouvia como se fosse, porque entendia como estar com alguém ali para partilhar sua memórias era importante.

    A despedida da minha vozinha já estava ocorrendo aos poucos nestes últimos anos. Porque pedacinhos dela estavam indo embora conforme a idade avançava. Então hoje, existe uma paz de espírito em sua partida. Não fui pego plenamente de surpresa, mas como disse mais acima, existe emoções e sentimentos que não havia como ter um preparo antecipado.

    Hoje, sinto uma tristeza que jamais pensei existir dentro de mim. É uma tristeza que dói, que vem quebrando como uma imensa onda que surge num grande oceano. Você a vê distante, e não entende o seu tamanho até de fato lhe engolir e as lágrimas saírem. Alguns minutos depois o mar volta a se acalmar, em preparo para a próxima onda. É difícil.

    Há saudade, mesmo que eu a tenha visitado e visto ela nas últimas semanas. Também a vi duas vezes no hospital. Uma destas vezes foi bonito, nós brincamos, brigamos, agimos como sempre fomos, ainda que ela estivesse horrorizada com sua situação, odiando estar no hospital e querendo fugir. Já na outra vez… essa me dói no coração, porque lá no fundo… eu sabia que ela não sairia dessa. E me senti péssimo por entender isso, por querer que ela descansasse, que seu sofrimento terminasse.

    Minha avó viveu 100 anos, foi uma vida em duas ou três. O mundo era muito diferente em 1926. Ela passou por revoluções tecnológicas, viveu as dores de duas guerras mundiais, constituiu família mais de uma vez, teve filhos, netos e bisnetos. E ela também sofreu dores que nunca cicatrizaram: perdeu filhos, perdeu amigos. Aos 100 viu muitos entes queridos irem embora antes dela. E ainda assim, é uma partida dolorosa, cuja a saudade pelo que não vai mais existir, que restará apenas em lembranças, fotos, e em meu coração. Ainda doí nesse dia posterior ao seu falecimento.

    Minhas últimas palavras para ela foram: “eu te amo“, “te vejo na quinta” e “não faz bagunça“. Quinta era o dia que normalmente a visitava. Num súbito de lucidez ela me perguntou “que dia é hoje?“, onde respondi “terça“. Eu fiquei contente com sua curiosidade, porque ali, eu a vi novamente, por alguns segundos, e sei que querer saber o dia da semana significava “o Thiago vai em casa quinta“. Era o nosso dia, nosso momento.

    De certa forma, eu me despedi dela com o mesmo mantra que tenho feito nos últimos anos, sem saber quando seria a última semana que a visitaria. Beijava na bochecha, dizia que a amava, pedia para ela se comportar e não fazer bagunça… e que estaria ali de volta, na próxima semana.

    Vó, agora você veio pro meu coração. Você não precisa mais esperar uma semana inteira pelo meu amor. Você esta aqui agora, incondicionalmente. Todos os dias, todos os minutos. Tudo que você me ensinou não será esquecido. Todas as suas preocupações e fardos, no que eu puder carregar, o farei. Não se preocupe por quem ficou. Nós ficaremos bem. Eu prometo. A tristeza é momentânea e passará.

    Até a próxima vez que nos veremos, meu cabeção.
    Você agora sou eu, e eu sou você.

  • Trechos Literários (2) – Disputa trabalhista na Divisão dos Cetáceos

    Eis um trecho do livro Vilão Iniciante, de John Scalzi.
    Achei apropriado reproduzi-lo no dia 1º de Maio (Dia do Trabalhador).
    Leia, garanto que se divertirá.


    Capítulo 9 – Págs 88-93

    Os escritórios da Divisão de Cetáceos ficavam a uma curta caminhada do cais, em uma lagoa artificial protegida e parcialmente fechada que se estendia por algumas centenas de metros. Lá dentro, um grupo grande de golfinhos nadava e brincava. A maioria se movia de forma aleatória — ou, pelo menos, de uma forma que me parecia aleatória —, porém, mais ou menos no meio da lagoa, perto de uma parede interna, seis deles estavam reunidos em duas fileiras, guinchando alto para uma mulher em traje de mergulho. Ela não parecia satisfeita.

    — O que está acontecendo? — perguntei enquanto caminhávamos em direção aos animais.
    — Uma reunião de reclamação — explicou Williams.
    — Que reclamações um golfinho poderia ter?
    — Que reclamações um golfinho não poderia ter? — disse Morrison.

    Ao final do caminho, chegamos à doca perto da lagoa. A mulher em traje de mergulho se virou e nos notou.

    Hora da verdade: até aquele momento, eu nunca tinha visto um golfinho na vida real.

    Mentira. Devo ter visto um golfinho em alguma excursão ao Aquário Shedd quando estava no quinto ano ou coisa assim. Mas nunca tinha feito nenhum esforço para ver um. Excursões à parte, aquários não eram minha praia e, na vida adulta, “nadar com golfinhos” parecia bizarro e objetificador. Não consigo imaginar que um deles realmente queira passar a vida sendo abraçado por uma sequência infinita de amantes de golfinhos bêbados e meninas pré-adolescentes, e eu não queria passar um único minuto com membros de nenhum desses grupos para fazer a mesma coisa.

    Durante nossa lua de mel em Maui, no Havaí (eu sei), Jeanine e eu fizemos um cruzeiro ao pôr do sol (eu sei) que prometia que veríamos golfinhos (eu sei), mas os organizadores do passeio não consultaram os golfinhos, e nenhum apareceu. Foi nesse cruzeiro que Jeanine descobriu que ficava terrivelmente enjoada em barcos de médio porte e vomitou três drinques mai tai e a comida do “bufê de luau” do navio nas minhas calças e sandálias. Não foi um bom começo para a vida de casados. Não acho que ver golfinhos teria ajudado.

    Tirando o fato de que seis deles estavam organizados em duas fileiras de três, nadando em silêncio na água bem à nossa frente, eles pareciam golfinhos comuns. Eu sabia que deviam pertencer a uma espécie específica, mas não tinha ideia de qual poderia ser; fisiologia de golfinhos não era minha especialidade. Notei que um deles, no centro da primeira fileira, estava boiando perto do que parecia ser um microfone.

    — Eles falam? — perguntei.
    O golfinho chiou alguma coisa.
    — Quem é esse filho da truta? — emitiu um alto-falante próximo.
    — Acho que isso responde — comentei.
    — Filho da truta! Filho da truta! — começaram a gritar os outros golfinhos em uníssono.

    A mulher em traje de mergulho se virou para eles e disse:
    — É o novo chefe de vocês, seus cretinos despolegados.
    — Foda-se ele! E foda-se essa sua visão de mundo manucêntrica!
    — “Manucêntrica”? — questionei.
    — Não é o que você pensa — disse a mulher em traje de mergulho, levantando-se e vindo na minha direção. — Manus é “mão” em latim. “Manucêntrico” é a palavra que eles inventaram de usar quando querem nos acusar de preconceito.
    — Fodam-se seus dedos! — exclamou o golfinho do meio.
    — Fora com os dedos! Fora com os dedos! — entoaram os outros golfinhos, resolvendo participar da discussão.

    Falando em mãos, a mulher em traje de mergulho estendeu a dela.
    — Astrud Livgren. Relações cetáceas.
    Apertei a mão dela.
    — E como vão essas relações?
    Astrud olhou para trás.
    — A mesma coisa de sempre.
    — Ela é uma escrota! — gritou o golfinho do meio.
    — Então eles são sempre assim?
    — Estamos bem aqui, porra! Pode perguntar, seu primata bípede!
    Levantei as sobrancelhas para Livgren.
    — “Primata” é novidade — comentou ela. — Eles misturam vários insultos para ver o que funciona. Você se acostuma. — A mulher gesticulou para os golfinhos. — Por favor, fiquem à vontade.

    Eu me aproximei deles. Os guinchos diminuíram.
    — Oi. Vocês são os primeiros golfinhos que estou conhecendo.
    — Olha só, grande merda — resmungou o golfinho do meio.
    Por um breve momento, pensei no software de tradução que tinha a capacidade de pegar os assobios e estalos de um golfinho e traduzir para “grande merda”, mas continuei:
    — Meu nome é Charlie Fitzer.
    — Oi, Charlie — disse o golfinho. — Meu nome é Tô Nem Aí, e esses são meus companheiros Caguei, Foda-se, Vaza Daqui, Quebra Tudo e Abaixo a Burguesia.
    — Prazer em conhecê-los. Pelo que entendi, temos algum tipo de disputa trabalhista, é isso?
    Tô Nem Aí bufou.
    — Como se você desse a mínima.
    — Eu também era filiado a um sindicato. O Chicago Tribune Guild.
    — Mas não é mais, né? Agora você é da gerência! Uma fístula burguesa supurante de opressão!
    — Fístula burguesa! Fístula burguesa! — repetiram os outros golfinhos em uníssono.
    — Não vou mentir, estou impressionado que vocês levam jeito para as palavras.
    — Não seja condescendente com a gente, seu monte ambulante de verrugas — disse Tô Nem Aí. — Se vai continuar com as políticas trabalhistas repressivas do seu tio, pode ir se foder lá na casa do cacete.
    — Lá no cacete! Lá no cacete!

    Olhei de volta para Morrison.
    — O tio Jake era contra sindicatos? — perguntei.
    — Ele era da opinião de que animais não tinham legitimidade legal para formar sindicatos — explicou Morrison.
    — O que os gatos acham disso?
    — A maioria deles está em cargos de gerência.
    — Gatos são uns pelegos. Um bando de traidores peludos, aqueles desgraçadinhos — comentou Tô Nem Aí.
    — Como…? — Eu me virei para Livgren. — Como é que os golfinhos têm consciência de classe, para começo de conversa?
    — As sociedades deles são complexas — respondeu ela. — Não necessariamente têm paralelos exatos com as sociedades humanas, mas dá para fazer analogias de modo geral, e pelo visto a ideia de classe é uma que funciona para eles. Além disso, meu antecessor nessa função leu O capital e outros textos sobre economia para os golfinhos.
    — Temos uma educação melhor que a sua, seu Habsburgo de cérebro liso chorumento — disse Tô Nem Aí.
    — Eu estudei na Northwestern — falei, só um pouco na defensiva.
    — Aaaaah, nossa, na Northwestern — repetiu Tô Nem Aí. — Maldito capacho dessas faculdades que só se preocupam com futebas, você deve ter tanto orgulho.
    — Capacho! Capacho!
    — Vocês se esqueceram da Universidade Rutgers — retruquei, mas então olhei de volta para Livgren. — Ainda assim, essa é uma informação bastante esotérica para uma criatura marinha.

    A mulher deu de ombros e apontou:
    — Temos um projetor a laser e eles sabem usar o controle remoto. Passam bastante tempo vendo tv. Futebol americano universitário é um dos programas favoritos.
    — O que eles fazem quando estão trabalhando?
    — Segurança e inteligência. Patrulham as águas ao redor de Santa Genoveva e nos alertam sobre qualquer pessoa ou coisa fora do comum. Também coletam informações sobre movimentação e comunicação náuticas.
    — É bastante coisa.
    — Vocês não conseguiriam fazer bosta nenhuma sem a gente. Seria uma pena se tivéssemos que entrar em greve — exclamou Tô Nem Aí.
    — Vocês já entraram em greve antes? — perguntei.

    Tô Nem Aí calou a boca e desviou o olhar.
    — Eles já ameaçaram. Mas nunca cumpriram — comentou Williams quando olhei para ele e Morrison.
    — Por que não? — continuei.
    — Não têm força de manobra — disse Morrison.
    — Como assim?
    — Significa que somos escravos de vocês, seus merdinhas — respondeu Tô Nem Aí.

    Olhei de volta para Morrison com uma expressão preocupada, e ela explicou:
    — Eles são livres para ir embora quando quiserem. Nós não os rastreamos. Bem, só enquanto estão em serviço, isso faz parte do trabalho. Só que não vamos impedir se um ou mais golfinhos decidir que quer ir embora. Mas eles não vão.
    — Por que não? — perguntei para Tô Nem Aí.
    — Pelo mesmo motivo que você não abandona sua casa para ir morar na selva com um bando de bonobos de merda, seu lixo explodindo de pus — respondeu Tô Nem Aí.

    Até pela tradução computadorizada eu percebi que ele (ela? Não sei como diferenciar o gênero dos golfinhos, e não era hora de perguntar) não tinha dedicado o mesmo ímpeto a esse último insulto.

    — Há desvantagens em ser inteligente — disse Livgren. — Ou, para ser mais exata, em ter uma inteligência mais humana do que outros membros de sua espécie. — Ela gesticulou para os seis golfinhos. — Eles ficam entediados com facilidade. Não se integram bem com membros inalterados da própria espécie. Já viram como os humanos costumam tratar mamíferos marinhos em cativeiro.
    — Porra, aquele documentário, Blackfish — comentou Tô Nem Aí.
    — Eles reclamam muito, mas também sabem quais são as alternativas — continuou Livgren. — Recebem um belo pagamento e são bem-cuidados, e suas necessidades como grupo e como indivíduo são atendidas. É uma troca justa pelo trabalho.
    — Não é só isso e você sabe — rebateu Tô Nem Aí, e acho que essa foi a primeira frase sem um insulto, ou um palavrão, ou ambos.

    Antes que eu pudesse perguntar o que isso significava, Williams pigarreou.
    — Charlie, temos outras coisas a resolver.
    — Isso mesmo, dá no pé, seu cagão — disse Tô Nem Aí.
    — Dá no pé! Dá no pé!
    — Volto em breve. Tem algo aqui que preciso investigar — decidi.
    — Claro — falou Williams com um sorriso. — Agora você é o chefe, Charlie. Não precisa fazer as coisas do jeito que seu tio fazia. Mas tudo o que Jake fazia tinha um motivo, e é importante você saber quais são eles.

    Williams fez um sinal para me afastar dos golfinhos. Eu me virei para Tô Nem Aí e implorei:
    — Não entrem em greve por enquanto, por favor.
    — Olha só, ele pediu “por favor”, isso resolve tudo — respondeu o golfinho. O momento de introspecção claramente havia passado.
    — Vou dar uma olhada nessa questão — prometi.
    — Chupa, Northwestern — retrucou Tô Nem Aí.
    — Chupa! Chupa! — entoaram os golfinhos.

    — Bem, correu tudo como você esperava? — perguntou Morrison, enquanto nos afastávamos da lagoa.
    — Não sei bem o que eu estava esperando ou imaginando.
    — Provavelmente não era golfinhos boca-suja — opinou ela.
    — Eles parecem ter a boca bem suja mesmo.
    — Se você fosse um golfinho sem opções, talvez também teria, Charlie.
    Parei para pensar nisso.
    — Você está do lado dos golfinhos aqui?
    — Entendo o ponto de vista deles.
    — Mas você concorda?
    Morrison me encarou.
    — Não era meu trabalho concordar ou discordar. Meu trabalho era fazer o que seu tio precisava que fosse feito.
    — Isso permite muita flexibilidade moral — comentei, depois de considerar as palavras dela.
    — É um bom eufemismo — concordou Morrison.
    — Qual é seu trabalho agora?
    — A mesma coisa. Só que agora envolve você também. Está na hora de ver o quão flexível é sua moralidade, Charlie. Porque é bom você saber que vai ter que fazer um baita alongamento.


    A quem se interessar:

    Vilão Iniciante (Link na Amazon)
    288 páginas
    John Scalzi
    Publicado no Brasil pela Editora Aleph
    Lançado originalmente em 2023

    — Sinopse oficial

    Depois de um divórcio conturbado, Charlie abandonou o trabalho como jornalista e passou a se dedicar ao ensino, mas não tem nem muito dinheiro, nem amigos ou parentes próximos, só sua gata um tanto indiferente lhe faz companhia. A verdade? Ele anda mesmo é tendo uma vida de cão.

    Quando é incumbido de atender ao último pedido de seu recém-falecido tio Jake, uma pessoa que não via ― nem desejava ver ― desde pequeno, Charlie descobre que é o único herdeiro de uma enorme fortuna. Mas toda essa grana foi acumulada graças aos negócios secretos do tio como supervilão, com covil em uma ilha vulcânica e tudo.

    No entanto, o novo cargo de vilão iniciante não é só alegrias, laser gigantes e poços de lava. É também dar conta de todos os adversários ricaços atraídos pelo tio durante os anos, verdadeiros Ernst Stavro Blofeld, Raoul Silva e Auric Goldfinger, arqui-inimigos de 007. Entre desavenças e facadas nas costas, agora cabe a Charlie tomar um partido nessa disputa centenária pelo controle do planeta enquanto lida com seu novo estilo vilanesco de vida.

  • Despedida a um avô que incomodava

    Escrever sobre a morte, o luto e a perda não é algo fácil. Mesmo não sendo a primeira vez que escrevo, sempre parece haver um peso no coração e na mente — somando a um calafrio que coexiste num momento em que você ainda está processando sobre o falecimento de alguém. Muitos até colocam sua própria mortalidade em perspectiva nestes momentos.

    Desta vez foi meu avô (Antonio) quem faleceu. 91 anos. Completou sua jornada neste plano existencial e se foi.

    Não é o primeiro avô que perco, mas o outro partiu quando ainda era muito novo, ainda muito criança. O sentimento e as circunstâncias são muito diferentes. Um avô perdido no início da infância, cujas lembranças existem por histórias e fotos é muito diferente de um avô que esteve por aqui, que pude conhecer, observar e ver envelhecer. E que agora, com sua história concluída, se fragmenta em apêndices históricos de quem ainda segue vivendo.

    Mas antes de continuar e dizer algumas coisas legais sobre meu avô recém falecido, preciso de preâmbulo para dizer que, como pessoa… bem, haviam incontáveis contradições.

    Sendo honesto, a palavra que acredito resumir meu avô, algo que ouvi de todos ao seu redor, desde que me dou por gente, é de que ele era “bicho ruim“. Tenho isso gravado em minha memória de infância, repetida vezes durante a adolescência e assim se seguiu até seus anos finais.

    Dizer que alguém é, por sua essência, ruim é genérico demais. Mas existe contexto. Meu avô era bruto em sua essência. Um chucro, muitas vezes desagradável. Sempre xingava, ofendia e brigava com qualquer pessoa da família. Se achava dono da razão e via interesse no dinheiro dele em todos ao redor. Era o tipo de parente que diz “sai da minha casa e não precisa mais voltar aqui, não!“, algo que o meu pai seguiu por duros anos quando eu ainda era criança.

    Era uma pessoa das antigas. Haviam atos de violência, física e verbal em suas veias. Alguém que bateu em seus filhos, de uma forma que hoje em dia a sociedade repudia. Suas palavras podiam tirar qualquer um do sério, ofendiam, humilhavam e ridicularizavam até as pessoas que moravam com ele. Um homem com segredos, mentiras e traições, rompantes históricos ainda mais antigos que a minha própria existência.

    Meu avô era uma pessoa que incomodava as pessoas. Alguém de poucos amigos. As irritavam, as deixavam indignadas. Cujo passado, sua infância, juventude, nunca pude descobrir a respeito. Nunca o desvendei. Só entendo que a vida, para quem nasceu por volta de 1935, estava longe de ser o mar de rosas dessa era de emojis e redes sociais. A cultura, os costumes, a sociedade não era NADA parecido como é hoje. Também não sei sobre meu bisavó (seu pai) e na correlação para que meu avô, o bicho ruim, se tornou esse ser.

    Essa era uma parte, mesmo que gigantesca, do meu avô Antonio. Ao menos que eu conheci, que posso contextualizar.

    Nestes últimos anos de sua vida, já havia cortado laços com meu avô. Há alguns anos que não o vejo — e agora esse relato é minha despedida post-mortem a ele. Minha motivação para tal afastamento ocorreu um pouco depois de ter terminado a pandemia, talvez em 2022 ou 2023. As pessoas, as famílias, tinham esse anseio de se encontrarem novamente, de se reverem.

    Mas a minha última visita na casa de meu avô não foi bacana. Havia um mal estar generalizado ali. Ele estava mal humorado, e sinceramente, nem recordo do motivo exato. Sempre era algo bobo, sem importância. Reclamando de tudo, de todos. Sendo o ingrato habitual. Me recordo não de uma briga, mas de um sermão que dei a ele. De dizer que ele deveria estar feliz pela reunião com a família, com seus netos e bisnetos. Que existem momentos pequenos na vida que precisam ser apreciados.

    Houve falas sobre o peso da idade. Ele tinha problema na vista, estava com ela bem debilitada. Dores no corpo. Não ter seus filhos presentes com a constância que ele gostaria para cuidar dele e da avó. Havia capricho, quase uma exigência. Sua frustração com não poder mais dirigir. E de como era árduo que qualquer favor que pedisse a alguém soava como alguém querendo extorquir dinheiro dele. Palavras e reclamações que já ouvia até mesmo antes da pandemia, antes mesmo de me tornar pai. Um cenário comum.

    Acabei intervindo. Palavras que hoje vejo que mais foram pra mim, do que talvez pra ele. Depois disso, decidi que as visitas parariam por ali.

    Disse: “Sim, tudo isso é uma merda. O fim da vida, o fim do ciclo é um saco, e é por isso que o senhor deveria apreciar ESSE momento, aqui e agora. Se isso não lhe traz felicidade, sinceramente não sei o que trará. Estamos aqui porque queríamos ver o senhor, a vó. Compartilhar a vida, enquanto ela ainda nos rodeia. Dores, dificuldade da idade, tempo acabando, não estou dizendo que não é uma reclamação válida, mas neste momento, tudo isso deveria momentaneamente ser colocado de lado. E toda vez que estamos aqui, parece que não estamos agradando a ninguém.

    Talvez não foram estas exatas palavras, mas foi o sentimento que deixei escapar de minhas cordas vocais. Não houve briga, mas ele fez aquela cara de “você não sabe nada“. A visita ficou com esse amargor até o fim. E nem era a primeira em que isso acontecia, mas foi a última que participei. Ele nunca me mandou embora da sua casa, mas tomei a decisão de não mais visitá-lo. Se é para todos ficarem mal, então qual o motivo do encontro? Nos despedimos e vida seguiu. Meus pais, minha irmã, continuaram indo lá nestes últimos anos. Eu não.

    Foi uma decisão errada? Há arrependimento? Difícil responder isso de forma assertiva. Foi o que aconteceu, e ponto. Pessoas se afastam, e a vida segue. É duro, é cruel. Mas é o que acontece.

    Dito isso, meu avô se foi. Ele não terminou sua vida se arrependendo de tantas coisas ruins que fez, de todos que ofendeu. Não houve pedidos de desculpas ou arrependimentos a ninguém. Ele seguiu em seu suspiro final sendo o bicho ruim que sempre foi. Não estou dizendo que não houve amor dele por sua família. Tenho certeza de que existiu, mas de um jeito deturpado e incômodo.

    O que resta agora, são estas palavras e o sentimento da perda. Uma momentânea reflexão dentro do luto. Há coisas pelas quais eu sou grato ao meu avô Antonio. Eventos de casualidade e efeito. Sua existência nesse plano trouxe adventos que foram importantes em minha vida. Há lembranças calorosas, até gentis.

    Foi um avô que bancou por anos férias no litoral para toda a família. Ainda que com diversas brigas e discordância entre os adultos, foram férias na infância que ficaram em minha memória. Como criança, me diverti horrores. Se hoje não ligo pro litoral e pra praia, foi porque ele proporcionou muito disso aos filhos e netos. Me lembro da sensação de liberdade nessas férias. De sair sozinho da casa, ir na padaria, jogar fliperama, de subir em árvore, enfim… de ser criança.

    Toda a minha vida adulta também poderia ser completamente diferente se meus avós não morassem no bairro em que conheci a minha esposa, o amor da minha vida. Foi por passar férias escolares na casa deles, que pude conhecer a molecada do bairro e, eventualmente, a menina moleca que viria a ser a mulher da minha vida. Meu avô pode não estar conectado diretamente a essa história, mas ele foi uma variável importante para que ela ocorresse.

    Já adulto, também aprendi pelos erros. Sobre como é chegar ao fim da vida e perceber o afastamento das pessoas ao redor do meu avô. Entender sobre a pessoa que não gostaria de me tornar. Entendi melhor sobre evitar ressentimento, ignorância, raiva e, principalmente, a infelicidade que dinheiro pode trazer, tendo ou não. Ele foi um exemplo do que não quero me tornar, e trouxe reflexões sobre envelhecer de uma forma que não afaste as pessoas. É triste, eu sei.

    E tenho mais uma lembrança sobre meu avô que me orgulho de ter. Durante o pior período da pandemia, passamos meses conversando ao telefone, enquanto em quarentena. Ele certamente se sentia sozinho, então ligava para as pessoas. Muitos não atendiam. Eu sim, em quase todas as ligações que ele me fez. Conversas que duravam quase horas inteiras.

    Curioso que estas ligações revelavam um avô diferente, fragilizado, claramente sentindo-se solitário. Sentindo falta das pessoas, da família. Essa que ele tanto ofendia e brigava. As ligações quase sempre eram sobre saudades, as dificuldades causadas pela pandemia, e querendo saber como eu e minha família estava. Ligações simples, mas havia emotividade em sua voz. Eu atendia porque entendo o sentimento de solidão no mundo, acabei me solidarizando com esse avô. Mas ele nunca existiu fora destes telefonemas. Presencialmente ele sempre foi outra pessoa, até mesmo depois da pandemia.

    Agora é desse avô que quero me lembrar. Do avô que levava todo mundo pra praia, que me permitiu passar férias em sua casa, sair pra rua pra brincar com a criançada (tempos em que era normal a criançada passar o dia todo na rua), que foi por causa disso que conheci minha esposa, que permitiu que hoje eu seja pai, do avô que precisou de uma voz na pandemia, e que acabou também me ajudando a passar por um período de muita ansiedade e incertezas.

    Sim, ele foi o bicho ruim. Seu Antonio não foi fácil. Deu muita dor de cabeça pra muita gente. Brigou, ofendeu e terminou sua jornada fiel em sua casca dura. Contudo, nos meus apêndices particulares, haverá coisas boas para me lembrar dele. Poucas, mas haverá, e acho que está tudo bem ser assim.

    No mais, sinceramente… espero que você, vô, independente de onde estiver, se estiver, encontre a paz e o descanso que nunca quis ter em vida.

    E a vida assim continua,
    porque a jornada de quem ficou,
    ainda não terminou.

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