Até semana que vem, Vó… não faça bagunça, ok?
De novo estou de volta diante deste teclado para falar sobre a morte. Algumas semanas depois de ter refletido sobre a morte do meu avô. Ontem, 24 de junho de 2026, minha avozinha — minha mãe, a Dona Adélia, meu cabeção — de 100 anos partiu desse plano de existência, após dias brigando entre estar ou partir. E palavras são importantes nesse momento, porque o coração pede por isso.
Minha avó foi a melhor pessoa que já tive a honra e o orgulho de conhecer nesta vida, com o coração do tamanho do mundo. Parte da minha criação foi feita por ela, que me ensinou valores, lições, caráter e de como é se sentir amado de forma incondicional. Suspeito que jamais irei encontrar alguém como ela.
Ela amou todo mundo. Quem merecia e não merecia, quem se distanciou ou surgia de forma ocasional, quem partiu e quem reapareceu, aquele que apenas existia, quem tinha interesse, quem estava apenas em suas lembranças, aquele que se manteve distante ou quem ela pediu por distância, até quem desapareceu no mundo. Não importa, seu amor, sua preocupação, sempre foi para todos. E como há tanto espaço num coração para tanta gente? Essa é uma resposta que, aos 40 anos, ainda não encontrei.
Já esperava sua partida, não pelo mal súbito que ela sofreu uma semana antes desse texto, mas era um sentimento que estava em meu coração nos últimos anos. São muitos anos, o corpo enfraquece, a mente ainda lúcida nem sempre vinha com a mesma força de outrora. Mas saber e acontecer de fato, realmente são construções emocionais tão diferentes… dizer que havia preparo mental… é uma grande mentira. O baque vem de onde você sequer sabia que poderia vir.
Minha avó era a minha mãe, ela me criou em uma parte significativa da minha jovem existência. Mesmo quando ainda não morava com ela, sua presença ainda está em muitas das minhas lembranças. Ela sempre foi uma força, um dínamo conectado a minha existência, dando energia, valores e juízo onde ainda nem entendia o quanto isso me transformaria no futuro. Quando parti de sua casa, para construir a minha família, casar com o amor da minha vida e ter meu lindo e maravilhoso filho, de forma involuntária eu criei um pacto nunca explicado, numa planejado: de retornar a sua casa, uma vez por semana, para vê-la.
Mais de duas décadas se passaram com tal hábito. Houve vezes que faltei? Sim. Teve semanas em que estava tão cansado que não fui? Houve. Quando isso acontecia, meu coração sentia certa dor, talvez culpa, por não ter tido força para realizar esse gesto. Fazendo uma conta de maluco, foram aproximadamente 1.040 semanas em 20 anos, a qual acredito que 95% das vezes eu estive lá. A vi, conversei sobre a vida, perguntei como ela estava. E ela me esperava toda a semana, contava com essa visita, e me sentia feliz pela gratidão dela esperar minha presença.
No começo, sempre tomávamos café, já que a visitava em finais de tarde. Ia na padaria, comprava pão. Mas nos últimos anos, houve um momento em que percebi que isso estava sendo difícil pra ela, já mais debilitada, receosa em lidar com cozinha, sem ter coisas gostosas para o neto, porque nem mais ir ao supermercado ela ia sozinha. Então fizemos outro acordo: a visita era só visita, não era um ode ao café da tarde. Ela não precisava me alimentar (pois é o que ela queria de fato). Foi difícil, mas ela aceitou. Nossas visitas era para nos vermos, conversar sobre a semana dela, fofocarmos e sobre nossas bobagens.
A visitei em dias chuvosos, em dias de extremo frio, com calor de suar para todo lado, em dias em que ela estava doente, também quando eu estava doente, em dia em que mal conseguia abrir os olhos de cansaço (acho que em uma ocasião eu cochilei alguns minutos do lado dela), e dias de tristeza, onde ela não se sentia bem. Ela sempre pareceu entender que cada semana, havia um Thiago diferente, as vezes mais animado ou mais cansado, as vezes com mais tempo, outras não. E ele sempre me recebeu com seu amor.
Chegando aos 100 anos, outras rotinas se estabeleceram. Tirar sua pressão se tornou uma conversa semanal. Ela sabia seus números, sempre dizia se eram altos, baixos ou normais dentro da mesma semana. Nossas conversas se repetiam em looping, pois com uma idade avançada, muitas história repetidas surgiam, ela sempre achando que estava me contando pela primeira vez. Eu ouvia como se fosse, porque entendia como estar com alguém ali para partilhar sua memórias era importante.
A despedida da minha vozinha já estava ocorrendo aos poucos nestes últimos anos. Porque pedacinhos dela estavam indo embora conforme a idade avançava. Então hoje, existe uma paz de espírito em sua partida. Não fui pego plenamente de surpresa, mas como disse mais acima, existe emoções e sentimentos que não havia como ter um preparo antecipado.
Hoje, sinto uma tristeza que jamais pensei existir dentro de mim. É uma tristeza que dói, que vem quebrando como uma imensa onda que surge num grande oceano. Você a vê distante, e não entende o seu tamanho até de fato lhe engolir e as lágrimas saírem. Alguns minutos depois o mar volta a se acalmar, em preparo para a próxima onda. É difícil.
Há saudade, mesmo que eu a tenha visitado e visto ela nas últimas semanas. Também a vi duas vezes no hospital. Uma destas vezes foi bonito, nós brincamos, brigamos, agimos como sempre fomos, ainda que ela estivesse horrorizada com sua situação, odiando estar no hospital e querendo fugir. Já na outra vez… essa me dói no coração, porque lá no fundo… eu sabia que ela não sairia dessa. E me senti péssimo por entender isso, por querer que ela descansasse, que seu sofrimento terminasse.
Minha avó viveu 100 anos, foi uma vida em duas ou três. O mundo era muito diferente em 1926. Ela passou por revoluções tecnológicas, viveu as dores de duas guerras mundiais, constituiu família mais de uma vez, teve filhos, netos e bisnetos. E ela também sofreu dores que nunca cicatrizaram: perdeu filhos, perdeu amigos. Aos 100 viu muitos entes queridos irem embora antes dela. E ainda assim, é uma partida dolorosa, cuja a saudade pelo que não vai mais existir, que restará apenas em lembranças, fotos, e em meu coração. Ainda doí nesse dia posterior ao seu falecimento.
Minhas últimas palavras para ela foram: “eu te amo“, “te vejo na quinta” e “não faz bagunça“. Quinta era o dia que normalmente a visitava. Num súbito de lucidez ela me perguntou “que dia é hoje?“, onde respondi “terça“. Eu fiquei contente com sua curiosidade, porque ali, eu a vi novamente, por alguns segundos, e sei que querer saber o dia da semana significava “o Thiago vai em casa quinta“. Era o nosso dia, nosso momento.
De certa forma, eu me despedi dela com o mesmo mantra que tenho feito nos últimos anos, sem saber quando seria a última semana que a visitaria. Beijava na bochecha, dizia que a amava, pedia para ela se comportar e não fazer bagunça… e que estaria ali de volta, na próxima semana.
Vó, agora você veio pro meu coração. Você não precisa mais esperar uma semana inteira pelo meu amor. Você esta aqui agora, incondicionalmente. Todos os dias, todos os minutos. Tudo que você me ensinou não será esquecido. Todas as suas preocupações e fardos, no que eu puder carregar, o farei. Não se preocupe por quem ficou. Nós ficaremos bem. Eu prometo. A tristeza é momentânea e passará.
Até a próxima vez que nos veremos, meu cabeção.
Você agora sou eu, e eu sou você.


