Despedida a um avô que incomodava

Escrever sobre a morte, o luto e a perda não é algo fácil. Mesmo não sendo a primeira vez que escrevo, sempre parece haver um peso no coração e na mente — somando a um calafrio que coexiste num momento em que você ainda está processando sobre o falecimento de alguém. Muitos até colocam sua própria mortalidade em perspectiva nestes momentos.
Desta vez foi meu avô (Antonio) quem faleceu. 91 anos. Completou sua jornada neste plano existencial e se foi.
Não é o primeiro avô que perco, mas o outro partiu quando ainda era muito novo, ainda muito criança. O sentimento e as circunstâncias são muito diferentes. Um avô perdido no início da infância, cujas lembranças existem por histórias e fotos é muito diferente de um avô que esteve por aqui, que pude conhecer, observar e ver envelhecer. E que agora, com sua história concluída, se fragmenta em apêndices históricos de quem ainda segue vivendo.
Mas antes de continuar e dizer algumas coisas legais sobre meu avô recém falecido, preciso de preâmbulo para dizer que, como pessoa… bem, haviam incontáveis contradições.
Sendo honesto, a palavra que acredito resumir meu avô, algo que ouvi de todos ao seu redor, desde que me dou por gente, é de que ele era “bicho ruim“. Tenho isso gravado em minha memória de infância, repetida vezes durante a adolescência e assim se seguiu até seus anos finais.
Dizer que alguém é, por sua essência, ruim é genérico demais. Mas existe contexto. Meu avô era bruto em sua essência. Um chucro, muitas vezes desagradável. Sempre xingava, ofendia e brigava com qualquer pessoa da família. Se achava dono da razão e via interesse no dinheiro dele em todos ao redor. Era o tipo de parente que diz “sai da minha casa e não precisa mais voltar aqui, não!“, algo que o meu pai seguiu por duros anos quando eu ainda era criança.
Era uma pessoa das antigas. Haviam atos de violência, física e verbal em suas veias. Alguém que bateu em seus filhos, de uma forma que hoje em dia a sociedade repudia. Suas palavras podiam tirar qualquer um do sério, ofendiam, humilhavam e ridicularizavam até as pessoas que moravam com ele. Um homem com segredos, mentiras e traições, rompantes históricos ainda mais antigos que a minha própria existência.
Meu avô era uma pessoa que incomodava as pessoas. Alguém de poucos amigos. As irritavam, as deixavam indignadas. Cujo passado, sua infância, juventude, nunca pude descobrir a respeito. Nunca o desvendei. Só entendo que a vida, para quem nasceu por volta de 1935, estava longe de ser o mar de rosas dessa era de emojis e redes sociais. A cultura, os costumes, a sociedade não era NADA parecido como é hoje. Também não sei sobre meu bisavó (seu pai) e na correlação para que meu avô, o bicho ruim, se tornou esse ser.
Essa era uma parte, mesmo que gigantesca, do meu avô Antonio. Ao menos que eu conheci, que posso contextualizar.
Nestes últimos anos de sua vida, já havia cortado laços com meu avô. Há alguns anos que não o vejo — e agora esse relato é minha despedida post-mortem a ele. Minha motivação para tal afastamento ocorreu um pouco depois de ter terminado a pandemia, talvez em 2022 ou 2023. As pessoas, as famílias, tinham esse anseio de se encontrarem novamente, de se reverem.
Mas a minha última visita na casa de meu avô não foi bacana. Havia um mal estar generalizado ali. Ele estava mal humorado, e sinceramente, nem recordo do motivo exato. Sempre era algo bobo, sem importância. Reclamando de tudo, de todos. Sendo o ingrato habitual. Me recordo não de uma briga, mas de um sermão que dei a ele. De dizer que ele deveria estar feliz pela reunião com a família, com seus netos e bisnetos. Que existem momentos pequenos na vida que precisam ser apreciados.
Houve falas sobre o peso da idade. Ele tinha problema na vista, estava com ela bem debilitada. Dores no corpo. Não ter seus filhos presentes com a constância que ele gostaria para cuidar dele e da avó. Havia capricho, quase uma exigência. Sua frustração com não poder mais dirigir. E de como era árduo que qualquer favor que pedisse a alguém soava como alguém querendo extorquir dinheiro dele. Palavras e reclamações que já ouvia até mesmo antes da pandemia, antes mesmo de me tornar pai. Um cenário comum.
Acabei intervindo. Palavras que hoje vejo que mais foram pra mim, do que talvez pra ele. Depois disso, decidi que as visitas parariam por ali.
Disse: “Sim, tudo isso é uma merda. O fim da vida, o fim do ciclo é um saco, e é por isso que o senhor deveria apreciar ESSE momento, aqui e agora. Se isso não lhe traz felicidade, sinceramente não sei o que trará. Estamos aqui porque queríamos ver o senhor, a vó. Compartilhar a vida, enquanto ela ainda nos rodeia. Dores, dificuldade da idade, tempo acabando, não estou dizendo que não é uma reclamação válida, mas neste momento, tudo isso deveria momentaneamente ser colocado de lado. E toda vez que estamos aqui, parece que não estamos agradando a ninguém.“
Talvez não foram estas exatas palavras, mas foi o sentimento que deixei escapar de minhas cordas vocais. Não houve briga, mas ele fez aquela cara de “você não sabe nada“. A visita ficou com esse amargor até o fim. E nem era a primeira em que isso acontecia, mas foi a última que participei. Ele nunca me mandou embora da sua casa, mas tomei a decisão de não mais visitá-lo. Se é para todos ficarem mal, então qual o motivo do encontro? Nos despedimos e vida seguiu. Meus pais, minha irmã, continuaram indo lá nestes últimos anos. Eu não.
Foi uma decisão errada? Há arrependimento? Difícil responder isso de forma assertiva. Foi o que aconteceu, e ponto. Pessoas se afastam, e a vida segue. É duro, é cruel. Mas é o que acontece.
Dito isso, meu avô se foi. Ele não terminou sua vida se arrependendo de tantas coisas ruins que fez, de todos que ofendeu. Não houve pedidos de desculpas ou arrependimentos a ninguém. Ele seguiu em seu suspiro final sendo o bicho ruim que sempre foi. Não estou dizendo que não houve amor dele por sua família. Tenho certeza de que existiu, mas de um jeito deturpado e incômodo.
O que resta agora, são estas palavras e o sentimento da perda. Uma momentânea reflexão dentro do luto. Há coisas pelas quais eu sou grato ao meu avô Antonio. Eventos de casualidade e efeito. Sua existência nesse plano trouxe adventos que foram importantes em minha vida. Há lembranças calorosas, até gentis.
Foi um avô que bancou por anos férias no litoral para toda a família. Ainda que com diversas brigas e discordância entre os adultos, foram férias na infância que ficaram em minha memória. Como criança, me diverti horrores. Se hoje não ligo pro litoral e pra praia, foi porque ele proporcionou muito disso aos filhos e netos. Me lembro da sensação de liberdade nessas férias. De sair sozinho da casa, ir na padaria, jogar fliperama, de subir em árvore, enfim… de ser criança.
Toda a minha vida adulta também poderia ser completamente diferente se meus avós não morassem no bairro em que conheci a minha esposa, o amor da minha vida. Foi por passar férias escolares na casa deles, que pude conhecer a molecada do bairro e, eventualmente, a menina moleca que viria a ser a mulher da minha vida. Meu avô pode não estar conectado diretamente a essa história, mas ele foi uma variável importante para que ela ocorresse.
Já adulto, também aprendi pelos erros. Sobre como é chegar ao fim da vida e perceber o afastamento das pessoas ao redor do meu avô. Entender sobre a pessoa que não gostaria de me tornar. Entendi melhor sobre evitar ressentimento, ignorância, raiva e, principalmente, a infelicidade que dinheiro pode trazer, tendo ou não. Ele foi um exemplo do que não quero me tornar, e trouxe reflexões sobre envelhecer de uma forma que não afaste as pessoas. É triste, eu sei.
E tenho mais uma lembrança sobre meu avô que me orgulho de ter. Durante o pior período da pandemia, passamos meses conversando ao telefone, enquanto em quarentena. Ele certamente se sentia sozinho, então ligava para as pessoas. Muitos não atendiam. Eu sim, em quase todas as ligações que ele me fez. Conversas que duravam quase horas inteiras.
Curioso que estas ligações revelavam um avô diferente, fragilizado, claramente sentindo-se solitário. Sentindo falta das pessoas, da família. Essa que ele tanto ofendia e brigava. As ligações quase sempre eram sobre saudades, as dificuldades causadas pela pandemia, e querendo saber como eu e minha família estava. Ligações simples, mas havia emotividade em sua voz. Eu atendia porque entendo o sentimento de solidão no mundo, acabei me solidarizando com esse avô. Mas ele nunca existiu fora destes telefonemas. Presencialmente ele sempre foi outra pessoa, até mesmo depois da pandemia.
Agora é desse avô que quero me lembrar. Do avô que levava todo mundo pra praia, que me permitiu passar férias em sua casa, sair pra rua pra brincar com a criançada (tempos em que era normal a criançada passar o dia todo na rua), que foi por causa disso que conheci minha esposa, que permitiu que hoje eu seja pai, do avô que precisou de uma voz na pandemia, e que acabou também me ajudando a passar por um período de muita ansiedade e incertezas.
Sim, ele foi o bicho ruim. Seu Antonio não foi fácil. Deu muita dor de cabeça pra muita gente. Brigou, ofendeu e terminou sua jornada fiel em sua casca dura. Contudo, nos meus apêndices particulares, haverá coisas boas para me lembrar dele. Poucas, mas haverá, e acho que está tudo bem ser assim.
No mais, sinceramente… espero que você, vô, independente de onde estiver, se estiver, encontre a paz e o descanso que nunca quis ter em vida.
E a vida assim continua,
porque a jornada de quem ficou,
ainda não terminou.

