Trechos literários

Trechos Literários (2) – Disputa trabalhista na Divisão dos Cetáceos

Eis um trecho do livro Vilão Iniciante, de John Scalzi.
Achei apropriado reproduzi-lo no dia 1º de Maio (Dia do Trabalhador).
Leia, garanto que se divertirá.


Capítulo 9 – Págs 88-93

Os escritórios da Divisão de Cetáceos ficavam a uma curta caminhada do cais, em uma lagoa artificial protegida e parcialmente fechada que se estendia por algumas centenas de metros. Lá dentro, um grupo grande de golfinhos nadava e brincava. A maioria se movia de forma aleatória — ou, pelo menos, de uma forma que me parecia aleatória —, porém, mais ou menos no meio da lagoa, perto de uma parede interna, seis deles estavam reunidos em duas fileiras, guinchando alto para uma mulher em traje de mergulho. Ela não parecia satisfeita.

— O que está acontecendo? — perguntei enquanto caminhávamos em direção aos animais.
— Uma reunião de reclamação — explicou Williams.
— Que reclamações um golfinho poderia ter?
— Que reclamações um golfinho não poderia ter? — disse Morrison.

Ao final do caminho, chegamos à doca perto da lagoa. A mulher em traje de mergulho se virou e nos notou.

Hora da verdade: até aquele momento, eu nunca tinha visto um golfinho na vida real.

Mentira. Devo ter visto um golfinho em alguma excursão ao Aquário Shedd quando estava no quinto ano ou coisa assim. Mas nunca tinha feito nenhum esforço para ver um. Excursões à parte, aquários não eram minha praia e, na vida adulta, “nadar com golfinhos” parecia bizarro e objetificador. Não consigo imaginar que um deles realmente queira passar a vida sendo abraçado por uma sequência infinita de amantes de golfinhos bêbados e meninas pré-adolescentes, e eu não queria passar um único minuto com membros de nenhum desses grupos para fazer a mesma coisa.

Durante nossa lua de mel em Maui, no Havaí (eu sei), Jeanine e eu fizemos um cruzeiro ao pôr do sol (eu sei) que prometia que veríamos golfinhos (eu sei), mas os organizadores do passeio não consultaram os golfinhos, e nenhum apareceu. Foi nesse cruzeiro que Jeanine descobriu que ficava terrivelmente enjoada em barcos de médio porte e vomitou três drinques mai tai e a comida do “bufê de luau” do navio nas minhas calças e sandálias. Não foi um bom começo para a vida de casados. Não acho que ver golfinhos teria ajudado.

Tirando o fato de que seis deles estavam organizados em duas fileiras de três, nadando em silêncio na água bem à nossa frente, eles pareciam golfinhos comuns. Eu sabia que deviam pertencer a uma espécie específica, mas não tinha ideia de qual poderia ser; fisiologia de golfinhos não era minha especialidade. Notei que um deles, no centro da primeira fileira, estava boiando perto do que parecia ser um microfone.

— Eles falam? — perguntei.
O golfinho chiou alguma coisa.
— Quem é esse filho da truta? — emitiu um alto-falante próximo.
— Acho que isso responde — comentei.
— Filho da truta! Filho da truta! — começaram a gritar os outros golfinhos em uníssono.

A mulher em traje de mergulho se virou para eles e disse:
— É o novo chefe de vocês, seus cretinos despolegados.
— Foda-se ele! E foda-se essa sua visão de mundo manucêntrica!
— “Manucêntrica”? — questionei.
— Não é o que você pensa — disse a mulher em traje de mergulho, levantando-se e vindo na minha direção. — Manus é “mão” em latim. “Manucêntrico” é a palavra que eles inventaram de usar quando querem nos acusar de preconceito.
— Fodam-se seus dedos! — exclamou o golfinho do meio.
— Fora com os dedos! Fora com os dedos! — entoaram os outros golfinhos, resolvendo participar da discussão.

Falando em mãos, a mulher em traje de mergulho estendeu a dela.
— Astrud Livgren. Relações cetáceas.
Apertei a mão dela.
— E como vão essas relações?
Astrud olhou para trás.
— A mesma coisa de sempre.
— Ela é uma escrota! — gritou o golfinho do meio.
— Então eles são sempre assim?
— Estamos bem aqui, porra! Pode perguntar, seu primata bípede!
Levantei as sobrancelhas para Livgren.
— “Primata” é novidade — comentou ela. — Eles misturam vários insultos para ver o que funciona. Você se acostuma. — A mulher gesticulou para os golfinhos. — Por favor, fiquem à vontade.

Eu me aproximei deles. Os guinchos diminuíram.
— Oi. Vocês são os primeiros golfinhos que estou conhecendo.
— Olha só, grande merda — resmungou o golfinho do meio.
Por um breve momento, pensei no software de tradução que tinha a capacidade de pegar os assobios e estalos de um golfinho e traduzir para “grande merda”, mas continuei:
— Meu nome é Charlie Fitzer.
— Oi, Charlie — disse o golfinho. — Meu nome é Tô Nem Aí, e esses são meus companheiros Caguei, Foda-se, Vaza Daqui, Quebra Tudo e Abaixo a Burguesia.
— Prazer em conhecê-los. Pelo que entendi, temos algum tipo de disputa trabalhista, é isso?
Tô Nem Aí bufou.
— Como se você desse a mínima.
— Eu também era filiado a um sindicato. O Chicago Tribune Guild.
— Mas não é mais, né? Agora você é da gerência! Uma fístula burguesa supurante de opressão!
— Fístula burguesa! Fístula burguesa! — repetiram os outros golfinhos em uníssono.
— Não vou mentir, estou impressionado que vocês levam jeito para as palavras.
— Não seja condescendente com a gente, seu monte ambulante de verrugas — disse Tô Nem Aí. — Se vai continuar com as políticas trabalhistas repressivas do seu tio, pode ir se foder lá na casa do cacete.
— Lá no cacete! Lá no cacete!

Olhei de volta para Morrison.
— O tio Jake era contra sindicatos? — perguntei.
— Ele era da opinião de que animais não tinham legitimidade legal para formar sindicatos — explicou Morrison.
— O que os gatos acham disso?
— A maioria deles está em cargos de gerência.
— Gatos são uns pelegos. Um bando de traidores peludos, aqueles desgraçadinhos — comentou Tô Nem Aí.
— Como…? — Eu me virei para Livgren. — Como é que os golfinhos têm consciência de classe, para começo de conversa?
— As sociedades deles são complexas — respondeu ela. — Não necessariamente têm paralelos exatos com as sociedades humanas, mas dá para fazer analogias de modo geral, e pelo visto a ideia de classe é uma que funciona para eles. Além disso, meu antecessor nessa função leu O capital e outros textos sobre economia para os golfinhos.
— Temos uma educação melhor que a sua, seu Habsburgo de cérebro liso chorumento — disse Tô Nem Aí.
— Eu estudei na Northwestern — falei, só um pouco na defensiva.
— Aaaaah, nossa, na Northwestern — repetiu Tô Nem Aí. — Maldito capacho dessas faculdades que só se preocupam com futebas, você deve ter tanto orgulho.
— Capacho! Capacho!
— Vocês se esqueceram da Universidade Rutgers — retruquei, mas então olhei de volta para Livgren. — Ainda assim, essa é uma informação bastante esotérica para uma criatura marinha.

A mulher deu de ombros e apontou:
— Temos um projetor a laser e eles sabem usar o controle remoto. Passam bastante tempo vendo tv. Futebol americano universitário é um dos programas favoritos.
— O que eles fazem quando estão trabalhando?
— Segurança e inteligência. Patrulham as águas ao redor de Santa Genoveva e nos alertam sobre qualquer pessoa ou coisa fora do comum. Também coletam informações sobre movimentação e comunicação náuticas.
— É bastante coisa.
— Vocês não conseguiriam fazer bosta nenhuma sem a gente. Seria uma pena se tivéssemos que entrar em greve — exclamou Tô Nem Aí.
— Vocês já entraram em greve antes? — perguntei.

Tô Nem Aí calou a boca e desviou o olhar.
— Eles já ameaçaram. Mas nunca cumpriram — comentou Williams quando olhei para ele e Morrison.
— Por que não? — continuei.
— Não têm força de manobra — disse Morrison.
— Como assim?
— Significa que somos escravos de vocês, seus merdinhas — respondeu Tô Nem Aí.

Olhei de volta para Morrison com uma expressão preocupada, e ela explicou:
— Eles são livres para ir embora quando quiserem. Nós não os rastreamos. Bem, só enquanto estão em serviço, isso faz parte do trabalho. Só que não vamos impedir se um ou mais golfinhos decidir que quer ir embora. Mas eles não vão.
— Por que não? — perguntei para Tô Nem Aí.
— Pelo mesmo motivo que você não abandona sua casa para ir morar na selva com um bando de bonobos de merda, seu lixo explodindo de pus — respondeu Tô Nem Aí.

Até pela tradução computadorizada eu percebi que ele (ela? Não sei como diferenciar o gênero dos golfinhos, e não era hora de perguntar) não tinha dedicado o mesmo ímpeto a esse último insulto.

— Há desvantagens em ser inteligente — disse Livgren. — Ou, para ser mais exata, em ter uma inteligência mais humana do que outros membros de sua espécie. — Ela gesticulou para os seis golfinhos. — Eles ficam entediados com facilidade. Não se integram bem com membros inalterados da própria espécie. Já viram como os humanos costumam tratar mamíferos marinhos em cativeiro.
— Porra, aquele documentário, Blackfish — comentou Tô Nem Aí.
— Eles reclamam muito, mas também sabem quais são as alternativas — continuou Livgren. — Recebem um belo pagamento e são bem-cuidados, e suas necessidades como grupo e como indivíduo são atendidas. É uma troca justa pelo trabalho.
— Não é só isso e você sabe — rebateu Tô Nem Aí, e acho que essa foi a primeira frase sem um insulto, ou um palavrão, ou ambos.

Antes que eu pudesse perguntar o que isso significava, Williams pigarreou.
— Charlie, temos outras coisas a resolver.
— Isso mesmo, dá no pé, seu cagão — disse Tô Nem Aí.
— Dá no pé! Dá no pé!
— Volto em breve. Tem algo aqui que preciso investigar — decidi.
— Claro — falou Williams com um sorriso. — Agora você é o chefe, Charlie. Não precisa fazer as coisas do jeito que seu tio fazia. Mas tudo o que Jake fazia tinha um motivo, e é importante você saber quais são eles.

Williams fez um sinal para me afastar dos golfinhos. Eu me virei para Tô Nem Aí e implorei:
— Não entrem em greve por enquanto, por favor.
— Olha só, ele pediu “por favor”, isso resolve tudo — respondeu o golfinho. O momento de introspecção claramente havia passado.
— Vou dar uma olhada nessa questão — prometi.
— Chupa, Northwestern — retrucou Tô Nem Aí.
— Chupa! Chupa! — entoaram os golfinhos.

— Bem, correu tudo como você esperava? — perguntou Morrison, enquanto nos afastávamos da lagoa.
— Não sei bem o que eu estava esperando ou imaginando.
— Provavelmente não era golfinhos boca-suja — opinou ela.
— Eles parecem ter a boca bem suja mesmo.
— Se você fosse um golfinho sem opções, talvez também teria, Charlie.
Parei para pensar nisso.
— Você está do lado dos golfinhos aqui?
— Entendo o ponto de vista deles.
— Mas você concorda?
Morrison me encarou.
— Não era meu trabalho concordar ou discordar. Meu trabalho era fazer o que seu tio precisava que fosse feito.
— Isso permite muita flexibilidade moral — comentei, depois de considerar as palavras dela.
— É um bom eufemismo — concordou Morrison.
— Qual é seu trabalho agora?
— A mesma coisa. Só que agora envolve você também. Está na hora de ver o quão flexível é sua moralidade, Charlie. Porque é bom você saber que vai ter que fazer um baita alongamento.


A quem se interessar:

Vilão Iniciante (Link na Amazon)
288 páginas
John Scalzi
Publicado no Brasil pela Editora Aleph
Lançado originalmente em 2023

— Sinopse oficial

Depois de um divórcio conturbado, Charlie abandonou o trabalho como jornalista e passou a se dedicar ao ensino, mas não tem nem muito dinheiro, nem amigos ou parentes próximos, só sua gata um tanto indiferente lhe faz companhia. A verdade? Ele anda mesmo é tendo uma vida de cão.

Quando é incumbido de atender ao último pedido de seu recém-falecido tio Jake, uma pessoa que não via ― nem desejava ver ― desde pequeno, Charlie descobre que é o único herdeiro de uma enorme fortuna. Mas toda essa grana foi acumulada graças aos negócios secretos do tio como supervilão, com covil em uma ilha vulcânica e tudo.

No entanto, o novo cargo de vilão iniciante não é só alegrias, laser gigantes e poços de lava. É também dar conta de todos os adversários ricaços atraídos pelo tio durante os anos, verdadeiros Ernst Stavro Blofeld, Raoul Silva e Auric Goldfinger, arqui-inimigos de 007. Entre desavenças e facadas nas costas, agora cabe a Charlie tomar um partido nessa disputa centenária pelo controle do planeta enquanto lida com seu novo estilo vilanesco de vida.

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